Questão 128 do ENEM 2009 — Literatura
A partida
Acordei pela madrugada. A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restava-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar mais nem uma hora naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.
Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras… Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?
LINS, O. A partida. Melhores contos. Seleção e prefácio de
Sandra Nitrini. São Paulo: Global, 2003.
No texto, o personagem narrador, na iminência da partida, descreve a sua hesitação em separar-se da avó. Esse sentimento contraditório fica claramente expresso no trecho:
Resolução comentada
O sentimento contraditório do narrador — ir embora ou despedir-se — aparece explícito na pergunta que ele faz a si mesmo: 'Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras…'. A hesitação entre partir em silêncio e acordar a avó é a própria formulação do dilema, com as duas possibilidades postas em dúvida.
O trecho que fala em partir sem dizer nada, deixando quanto antes as cadeias de disciplina e amor, mostra apenas um dos lados do conflito. Ali há decisão, não hesitação — falta o movimento contrário, que só aparece na dúvida sobre fugir ou falar com ela.